• Flávia Esper

A medicina da libélula


Para os índios, cada ser tem uma medicina, um ensinamento, uma beleza única. A libélula, por exemplo, tem a medicina das ilusões. Ela nos pergunta sobre as ilusões que criamos e às quais nos agarramos como se fossem verdades irrevogáveis.

E se aquilo que você acredita ter acontecido em dada situação tiver uma outra verdade? E se as crenças que você tem sobre suas limitações forem ilusórias? E se as pessoas e o emprego que você pensava serem os melhores ou piores não o fossem? E se seus medos fossem apenas um disfarce dos seus desejos?

Geralmente, agarramo-nos a certas ideias, versões e crenças por medo, por querer controlar o que acontece, entender tudo, justificarmo-nos, explicar os fatos. Às vezes, nosso olhar está viciado, condicionado a enxergar sempre as situações e pessoas por determinado prisma. A ilusão, ainda quando nos causa dor, é também uma forma de proteção. Ela torna o mundo seguro, pois acreditamos sempre saber o que está acontecendo. E evitamos surpresas com o outro e com o que conhecemos de nós. "Sempre acontece assim." "As pessoas sempre agem assim comigo." "Eu sempre faço isso." Será mesmo? Ou será que nós estamos enxergando ou até inconscientemente provocando a realidade sempre da mesma maneira?

Muitas vezes, a insegurança em relação à vida, o desejo de ser amado ou o medo de ser rejeitado inspiram as crenças ilusórias e visões limitantes. A ilusão nos aprisiona numa mesma verdade sobre nós, o mundo e os outros, que nos protege de olhar e enfrentar com amor nossas inseguranças e fragilidades. A grande ilusão, porém, é acreditar que haja fatos e limites que não possam ser contornados com criatividade ou imagens de pessoas que não possam ser dissolvidas por outros olhares.

A medicina da libélula está em reconhecer onde nos iludimos, onde criamos leituras da realidade através de lentes próprias, que no impedem de um olhar mais amplo. "A que histórias e versões nos agarramos?" - nos pergunta a libélula. A magia de romper a ilusão resulta em liberdade e leveza, porque é uma abertura para experimentar a vida sem tantos medos, com a curiosidade infantil de quem está conhecendo o mundo e tudo é uma descoberta.

Confiar na vida e entregar-se a ela, não com a passividade do que espera um destino traçado, mas fazendo apenas o que nos é possível e abrindo mão do controle sobre os resultados é de uma paz enorme. Quanto mais confiamos e temos segurança, mais podemos nos despir de nossas ilusões e viver a vida em sua realidade mais plena. Assim, liberamos toda essa energia belíssima de criação e sonho não para nos iludirmos, mas para criarmos uma nova realidade.

Quando ilusão e realidade e unem, o poder transformador é enorme. A energia criativa e poética da ilusão pode, finalmente, ser usada para embelezar a realidade, criar novas propostas, em vez de negá-la. A ilusão é parecida com a energia criativa do sonho, é uma forma de manifestação criativa do desejo. Quando a usamos harmonicamente, ela nos ajuda a imaginar e criar o que desejamos para nós. Ao usarmos essa energia conscientemente, escolhendo usá-la para recriar a realidade, em vez de negá-la, podemos concretizar nossos sonhos no mundo físico.

E é seguro.

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