• Flávia Esper

A medicina da lesma


No ano de 2009, recebi meu segundo tambor xamânico. Em um fim de semana, na Aldeia do Sol, fizemos uma cerimônia de consagração do tambor. Durante a cerimônia, uma lesma gigante caiu bem em cima do couro do tambor. Era uma lesma realmente grande, a maior que já vi. Era linda, lustrosa, enorme, mas era uma lesma. E eu, que andava descontente com meu jeito lento de caminhar pela vida, acabei dando um ataque:

- Claro! Tinha de ser uma lesma! Vai ver a lesma veio batizar meu tambor porque meu animal de poder deve ser mesmo a lesma, lerda do jeito que eu sou, devagar quase parando, levando um tempo gigante para resolver as mesmas velhas questões.

Enquanto eu desabafava, a ironia expressando toda a raiva que eu tinha de mim mesma na época (como a gente é cruel com a gente às vezes), um dos xamãs olhava o chão, calado e pensativo. Quando eu me acalmei, ele me olhou pacientemente e perguntou:

- Você viu de onde a lesma caiu?

Respondi que sim, do teto, já começando a me envergonhar do ataque de minutos antes. Ele continuou, dizendo que a lesma, diferente de outros animais também conhecidos pela lentidão na terra, como a tartaruga, chega a qualquer lugar, sobe em qualquer árvore ou pilastra, caminha de cabeça para baixo pelo teto. Pode viver tanto na terra quanto no mar. Enfim, vai aonde quer, chega aonde quer. "Desde que você respeite o tempo dela", completou.

Essa conversa de poucos minutos aconteceu há quase dez anos, mas foi fundamental na minha vida. Aprender a respeitar meu próprio passo e ritmo, com amorosidade e paciência, fez uma diferença incrível. Ironicamente, quando larguei o chicote com que tentava apressar meu passo e atropelar o processo, e o troquei por acolhimento e amorosidade, as mudanças começaram a ser mais rápidas. Comecei a caminhar mais depressa. E percebi que, quanto mais nos acolhemos, mais nos sentimos seguros e alegres para caminhar e mudar, mais nos incentivamos a sermos cada vez melhores.

Em uma outra vez, um mestre e terapeuta chamado Alex Fausti me ensinou que precisamos ser mais amorosos conosco. Naquela época, eu ainda tinha uma crença equivocada sobre amoprosidade, e confundia ser amorosa com o próprio passo e com os próprios erros com ser conivente, acomodada, "passar a mão na cabeça". Então ele me perguntou como eu falava com crianças que estavam aprendendo e erravam, e me disse que eu deveria me tratar com a mesma amorosidade. Foi quando percebi que acolhimento e incentivo são bem diferentes de "passar a mão na cabeça".

Respeitar nosso próprio tempo não significa acomodar-se. Significa que reconhecemos que há um processo em curso e que as mudanças não ocorrem de uma hora para outra. Vamos caminhando, nos preparando para elas, nos acostumando com a ideia, até que faça sentido profundo para a alma e que consigamos mudar. Como diz uma amiga minha, é preciso respeitar o tempo da semente.

Anos mais tarde, quando eu estava em um momento difícil, uma amiga colombiana muito querida, que conhecia a história da lesma, começou a me mandar, todo dia, uma imagem diferente de caracóis. Sei que lesma e caracol não são exatamente o mesmo, mas meu portunhol não conseguiu explicar, na época, a diferença pra ela. Fato é que aquelas imagens foram acordando um grande amor em mim e a certeza de que as coisas dariam certo, como deram algum tempo depois. A imagem que ilustra este texto foi uma das que ela me enviou.

Até hoje essa história é bastante presente para mim, tanto como pessoa quanto como terapeuta. Respeitar o passo do outro, o processo e o tempo do outro é uma arte que só desenvolvemos quando conseguimos estar em paz com nosso próprio tempo também. É importante que um terapeuta conheça profundamente a diferença entre incentivar, respeitando o passo do outro, e tentar forçar alguém a enxergar algo que não está pronto para ver.

A terapia, muitas vezes, é um espaço de grande ansiedade. Olhar para certas questões pode ser doloroso. Somos programados para tentar evitar a dor, especialmente na cultura atual, em que para tudo parece haver uma pílula, uma solução rápida que possa ser comprada. Quem de nós nunca quis poder apertar um botão e resolver logo uma dor, luto ou padrão?

Algumas vezes, também, o processo parece demorar, a pessoa se sente como se não saísse do lugar. Talvez porque ainda não esteja pronta para mudar o olhar e conseguir abandonar a visão anterior. Outras vezes, especialmente para pessoas muito mentais e inteligentes, há uma angústia pelo descompasso entre saber - racionalmente - o que "precisa" ser feito e conseguir realmente fazer isso. Reconhecer a importância do tempo também é fundamental para que o terapeuta possa lidar com a ansiedade do cliente (e com a sua também, porque os terapeutas gostam de ver os clientes se realizarem).

Respeitar o tempo é ter carinho conosco e com o outro, é saber ir devagar o suficiente, nem mais nem menos que o necessário. Assim, podemos ir abrindo mão, aos poucos, de crenças antigas, padrões, dores, mas de uma forma segura e consistente. Abrir mão de certas histórias pode levar tempo, mesmo que, racionalmente, já tenhamos decidido o que fazer. O coração tem um tempo próprio e a sabedoria da lesma: chega aonde quer, desde que se escute seu tempo.

O que, às vezes, consideramos "lentidão" geralmente é, na verdade, o tempo exato necessário para que possamos olhar para uma questão sem nos desestruturarmos além do que suportamos no momento. É o tempo perfeito para amadurecermos a decisão internamente, termos clareza emocional e para nos sentirmos seguros(as) para abrir mão de um padrão e criar novas formas de sentir, enxergar e agir.

Aprendi a me preocupar menos com o tempo, não porque eu queira me alongar nos processos, mas porque hoje sei que, quanto mais acolhemos nosso passo, nossas dores e nossas histórias, mais fácil fica chegarmos aonde queremos. Mesmo porque, não há outra forma de chegar. Mudança feita às pressas não perdura. É necessário amadurecer para que a mudança seja profunda e duradoura. Foi a medicina que aquela lesma me deixou, traduzida nas palavras amorosas do xamã, a quem sou profundamente grata. E não existe tempo certo e tempo errado, porque a vida não atrasa nem adianta.

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