• Flávia Esper

Kali e a virada de ano


Não se sabe bem como ela chegou a nós nem quando. Talvez sempre tenha estado aqui, já que uma das traduções do seu nome é “o poder do próprio tempo”. Há muitas histórias sobre ela e sobre como surgiu, mas todas têm em comum sua vitória nas batalhas. Ganhou fama na luta contra demônios, como a única dentre deuses e deusas capaz de realmente derrotá-los.

Seu nome, Kali, significa negra e ela é negra como a escuridão do útero de onde nascemos ou como a noite que tem, em semente, o sol. Kali é a própria força cíclica da natureza, conectada aos términos e aos recomeços. Seus seios fartos alimentam a maternidade incessante do mundo, sua espada comanda o fim. Ela é venerada por muitos como a verdadeira força feminina, que guarda os segredos da morte e da recriação e gestação da vida. Aquele que, como ela, enfrenta as próprias sombras e términos com coragem e benevolência é capaz de encontrar a luz mais pura e passar pela morte sem sofrer. Kali, a vitoriosa, é a certeza de que o bem sempre vencerá o mal, e de que a dança das trevas e da luz continuará, sustentando o movimento do mundo.

Kali é uma mulher exuberante, de pele negra ou azul, três olhos, cabelos pretos imensos e soltos. Aparece sempre nua, com sua língua para fora. Carrega um colar de crânios ao redor do pescoço e braços decepados ao redor da cintura. Pode chegar a ter vinte braços, mas, geralmente, aparece com quatro, que simbolizam sua capacidade de agir e dirigir as quatro direções do espaço. Em uma de suas mãos, carrega uma espada desnuda, com a qual vence os inimigos e destrói os sofrimentos. Em outra, carrega a cabeça cortada de um demônio, lembrando sua vitória sobre todos os males do mundo. Suas outras duas mãos formam símbolos (mudras), um de ausência de medo, outro de benevolência. A ausência de medo é a essência de seu ser. Kali não teme as sombras, pois sabe que elas fazem parte de tudo tanto quanto a luz e é por isso que pode derrotá-las, apropriar-se de sua força e recriar o universo. Ela dança a dança da vida, da transformação e da morte.

Uma das histórias sobre a sua origem diz que os deuses haviam sido derrotados e atirados para fora de sua moradia. Eles invocaram a Grande Mãe Divina, para que viesse em seu socorro e libertasse sua morada dos terríveis demônios. A deusa surgiu na forma de Durga, montada em seu tigre, para combater o mal. Durga lutou contra muitos, mas, quando se deparou com Chanda e Munda, seu rosto avermelhou-se de raiva, sentindo que não teria força suficiente. Das sobrancelhas de sua testa, brotou imediatamente Kali, com sua face assustadora, carregando espada e laço. Ela portava um estranho bastão coroado por um crânio e tinha uma guirlanda de cabeças humanas, estava envolta em uma pele de tigre, com sua boca escancarada, aterrorizando com sua língua para fora, com olhos afundados e vermelhos, e uma boca que enchia os quatro cantos com rugidos.

Durga pediu a Kali que destruísse os demônios. Kali causou destruição à sua volta, dançou sobre os cadáveres, matou Chanda e Munda e, como troféus de guerra, trouxe suas cabeças decepadas. Mas a vitória de Kali enfureceu ainda mais os inimigos. Foi então que Rakta-bija e outros de seu clã, atacaram a Durga e a cercaram, juntamente com Kali. Seguiu-se uma batalha feroz, mas Rakta-bija tinha um dom e, de cada gota de seu sangue que tocasse o solo, outro dele surgia. Kali passou a beber o sangue de Rakta-bija antes que caísse sobre o solo. E foi assim, cortando-lhe a cabeça e bebendo seu sangue, que Kali derrotou o maior dos demônios e salvou os deuses. Passou a ser venerada em muitas partes, como aquela que tem o poder de destruir o mal com sua dança e espada.

Contam os antigos que, certa vez, após uma batalha, embriagada por sua própria dança, Kali continuava seu bailado de destruição sem parar sobre os destroços até que Shiva, seu consorte, lançou-se ao chão, deixando-se ser pisoteado por ela. Foi então que, ao conectar-se com ele e com o propósito espiritual de sua dança, acalmou-se, e permitiu que o novo fosse criado. Por isso, muitas vezes, ela é representada de pé, sobre o corpo morto com pênis ereto de Shiva, recolhendo, em sua vagina, as sementes para a reconstrução do mundo.

A destruição, para ela, é apenas um meio de preservação, uma etapa necessária para que a vida possa ser renovada, recriada. É uma forma de regressar à fonte criadora. Mais que a soma de opostos, Kali abarca, em si, a fusão dos opostos: medo e benevolência, morte e vida, luz e escuridão. Para alguns, sua cor negra é um símbolo de desintegração. Assim como todas as cores desaparecem no preto, assim todos os nomes e formas se misturam nela, representando a consciência pura.

Kali, nua, vestida de céu, livre de toda cobertura ilusória, nos revela a caminhada do irreal para o real. Ela mostra a verdade por detrás das ilusões e dos desejos do ego. Deusa da sexualidade e da morte do ego, traz as sombras à luz para que possam ser transmutadas. Tem o poder da morte e da criação. Rompe com aquilo que não lhe faz mais bem ou que já cumpriu seu tempo, para que nova etapa possa florescer. Faz com que o poder oculto por nossas máscaras seja retomado, para que nos reconectemos à nossa força criativa, pois é nas nossas sombras que está, também, todo nosso poder de criação. Kali nos convida a olhar para nossa sombra desnuda, sem os véus e máscaras do dia a dia. Convida-nos a olhar os términos como necessários à criação do que virá. Se pudermos amar o corpo negro e desnudo de Kali, com sua beleza e também com seu horror, poderemos encerrar bem os ciclos, de forma suave e consciente.

Kali, que representa nela própria as trevas e a morte, é a fonte mais poderosa de vida e de luz ilimitada. Ela destrói o ego para que acessemos o self, põe fim para recriar. Do útero escuro, aonde nenhum raio de luz jamais chega, surge a vida. Das trevas, nasce a luz brilhante e, quanto mais profunda a escuridão, mais brilhante será a luz. Apenas os términos possibilitam os recomeços. Ou, como diria o poeta Albano Martins: “A vida/ - essa invenção magnífica/ da morte.” Kali é a divina sabedoria que põe fim a toda ilusão. Ela nos dá a coragem e o suporte para destruirmos e deixarmos ir o que precisa, e nos apropriarmos da semente e de nosso poder para criarmos o que desejamos. Aquele que tem a coragem para encarar suas sombras e ilusões, encarar o que está por trás do ego, entendendo os sofrimentos como um caminho para a alegria e a luz, tem a benevolência e a proteção de Kali e está em paz com a vida e a morte.

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