Gaslighting médico: quando o profissional que deveria ajudar faz você duvidar de si mesma
- Flávia Esper
- há 16 horas
- 6 min de leitura

Você já saiu de uma consulta se sentindo menor do que entrou? Cansou de ouvir "mas seus exames estão normais"? Já escutou que sua dor é "só" ansiedade, que é estresse, que é falta de exercício da boca de alguém que deveria estar ali para ajudar você a entender o que está acontecendo com seu corpo ? Se já passou por isso, saiba que não está sozinha. E isso tem nome: gaslighting médico e pode causar traumas profundos.
O que é gaslighting médico
Gaslighting é um tipo de manipulação psicológica em que alguém faz você duvidar de si mesma, das suas percepções, da sua própria experiência. O termo vem de uma peça de teatro de 1938, que deu origem a dois filmes, o mais conhecido deles com Ingrid Bergman, em que um marido manipulava a iluminação da casa para fazer a esposa acreditar que estava enlouquecendo.
Ela via algo mudar, e ele dizia que era impressão dela. Quando alguém, especialmente alguém em quem você confia ou cuja opinião respeita, insiste em dizer que o que você percebe não está acontecendo, isso cria uma distorção da realidade que contradiz e invalida o que você está sentindo.
O gaslighting médico funciona de forma parecida. Ele acontece quando um profissional de saúde, mesmo que não tenha essa intenção, invalida os seus sintomas, descarta as suas queixas, faz você duvidar e si mesma, como se seus sintomas não fossem reais. E você sai da consulta acreditando que talvez seja mesmo coisa da sua cabeça.
Isso é especialmente grave quando acontece com profissionais de saúde, porque são eles que deveriam ajudar você a entender o que está acontecendo com o seu corpo e a encontrar um tratamento. Quem chega a um médico com sintomas incapacitantes já chega fragilizada pela dor, por não entender o que está acontecendo, muitas vezes com vergonha ou culpa por não estar conseguindo trabalhar como antes ou manter a rotina. A pessoa chega pedindo ajuda e sai duvidando da própria sanidade.
Por que isso é tão comum com doenças invisíveis
Doenças como fibromialgia, síndrome de Ehlers-Danlos, encefalomielite miálgica/ síndrome da fadiga crônica, endometriose, COVID longa e várias condições autoimunes têm algo em comum: não aparecem nos exames de rotina. Não há uma lesão visível, uma fratura, uma alteração óbvia no hemograma que justifique os sintomas.
Nas doenças invisíveis, as dores e outros sintomas podem ser extremamente incapacitantes, mas, quem olha de fora, não vê que a pessoa está doente. E quem olha os exames de rotina também não. Quando os exames voltam normais, a conclusão mais fácil — e mais devastadora — é que a pessoa está exagerando, inventando, fingindo. E isso, além de não ser verdade, é cruel.
Frases como "seus exames estão normais", "isso é ansiedade", "todo mundo sente dor", "você é muito sensível", "vou te passar um calmante" são tão comuns no percurso de quem tem essas condições que quase se tornaram um roteiro. Eu escutei todas elas durante muitos anos, desde a infância. E em algum momento, depois de ouvir isso de médico em médico, comecei a duvidar de mim mesma. Afinal, se ninguém encontrava nada, talvez fosse mesmo da minha cabeça.
Não era.
Doenças como essas podem levar anos, e às vezes décadas, para serem diagnosticadas. E, durante todo esse tempo, a pessoa passa de especialista em especialista, faz exame atrás de exame, muitas vezes é medicada como se a causa fosse emocional, e vai ficando desgastada, não só pela dor, mas pela ausência de reconhecimento e tratamento adequado.
O perigo do gaslighting médico
Duas coisas muito graves acontecem quando a invalidação se repete.
A primeira é que a pessoa fica sem tratamento. Se ninguém descobre o que você tem, ninguém pode tratar corretamente a causa. Enquanto isso, a doença avança, os sintomas pioram, e a qualidade de vida cai, deixando, muitas vezes, sequelas graves.
A segunda é que a pessoa começa a se distanciar do próprio corpo. Você tem um corpo que está pedindo socorro, que tem necessidades específicas, que precisa de cuidado. E, ao ser repetidamente invalidada, passa a desconfiar das próprias sensações. Isso pode gerar culpa por não melhorar, frustração, busca por tratamentos inadequados, sensação de que não se esforçou o suficiente, desânimo, medo e ansiedade antes de consultas médicas e até trauma médico.
O trauma médico não é fraqueza. É uma traumatização diante da invalidação repetida, da falta de suporte, de ficar sozinha para lidar com sintomas que sobrecarregam e incapacitam, sem entender o que está acontecendo. E, muitas vezes, essa invalidação ainda é acompanhada de falta de tato, ironia, rispidez.
Faz todo sentido que o corpo aprenda a temer um lugar aonde, toda vez que vai, sai se sentindo pior do que entrou. Faz sentido ter mmedo de ir às consultas, ansiedade e mesmo pânico. É uma tentativa do seu sistema nervoso de se proteger de uma situação que já causou sofrimento repetidamente. O problema é que essa proteção também afasta a pessoa de encontrar o tratamento de que ela precisa.
Gaslighting médico não é o mesmo que erro médico
Erro médico é uma falha técnica, algo que o profissional fez ou deixou de fazer, um diagnóstico equivocado, uma conduta inadequada. O gaslighting médico é outra coisa. É uma invalidação persistente dos sintomas que a pessoa traz. É falta de escuta, falta de empatia, um olhar genérico que não consegue contemplar condições mais específicas ou apresentações menos óbvias de doença.
Ele também não é necessariamente intencional. Parte disso vem de formações médicas que ainda têm lacunas enormes sobre condições invisíveis. Parte vem de sistemas de saúde que não dão tempo para consultas aprofundadas. E parte vem de um viés muito documentado: a dor das mulheres é historicamente subdiagnosticada e essas doenças afetam majoritariamente mulheres.
O que você pode fazer
Se você está passando por isso, algumas coisas podem ajudar.
Primeiro: reconheça que os seus sintomas são reais. Não importa o que os exames mostrem ou deixem de mostrar. Existem condições graves que não aparecem em exames de rotina. Existem doenças invisíveis que têm esse nome justamente porque não são visíveis de fora e nem sempre aparecem nos exames.
Se possível, leve alguém de confiança nas consultas. Não alguém que vá reforçar a ideia de que você está exagerando, mas alguém que valide o que você sente e possa te ajudar a se comunicar num momento em que talvez a ansiedade dificulte isso.
Antes da consulta, escreva. Faça uma lista dos sintomas, com quando começaram, com que frequência aparecem, o que piora, o que melhora, se há alguma linha do tempo que faça sentido. Isso organiza as informações e ajuda o médico a ver um quadro mais completo e ajuda você a não sair da consulta sem perguntar o que precisava perguntar.
Eu sempre faço uma lista de perguntas que quero fazer. Isso me ajuda a não esquecer nada importante e, caso eu fique ansiosa ou emotiva, posso ler a lista diretamente para o médico. De todas as sugestões que dou aqui, essa é a que nunca deixo de fazer, porque me ajuda muito.
Se o médico disser que é psicológico, você pode perguntar: "Se não for, o que mais pode ser? Que outras hipóteses existem para o que eu estou descrevendo?" São perguntas que às vezes abrem um caminho diferente na conversa. Também pode perguntar a ele o que ele investigaria, se tivesse os mesmos sintomas que você e não acreditasse ser psicológico. Isso ajuda alguns profissionais a se lembrarem de se colocar um pouco no lugar do paciente.
Busque uma rede de apoio, de preferência de pessoas que tenham condições semelhantes às suas. A invalidação se combate com validação. Grupos de pessoas que vivem o mesmo que você podem ser um espaço importante de reconhecimento, de troca de informações, de indicações de profissionais que realmente entendem essas questões. Isso não é se autodiagnosticar. É se sentir menos sozinha num percurso que pode ser muito longo e muito desgastante.
Tenha o apoio de uma psicoterapeuta que entenda profundamente de doenças invisíveis ou, pelo menos, que tenha uma visão informada sobre trauma. Ela pode ajudar você a lidar com os impactos dos sintomas e da busca por diagnóstico e desenvolver estratégias específicas para o seu caso.
Se você sentir que está traumatizada, com dificuldade para marcar consultas, ansiedade intensa antes de exames, sensação de que nada vai adiantar, a psicoterapia é o espaço adequado para trabalhar isso. Especialmente uma psicoterapia especializada em dor crônica e doenças invisíveis com abordagem trauma-informed, que entende como esse tipo de experiência se instala e como é possível trabalhar com ela.
Uma última coisa
Tem uma frase que eu repito muito para as pessoas que me procuram, porque sei na pele o que é precisar escutá-la:
A sua dor é real. A sua experiência é válida. E você merece um cuidado que reconheça isso.
Vale a pena buscar um diagnóstico, pois, a partir dele, é possível buscar tratamento adequado para o seu caso. Mas há algumas estratégias seguras que você pode ir fazendo para tentar ficar um pouco melhor até conseguir o diagnóstico.
Se você quer conversar sobre como a psicoterapia especializada pode ajudar você a lidar com o que está vivendo, o link para marcar uma entrevista gratuita está aqui. Conversamos um pouco para nos conhecermos e vermos se a psicoterapia é o mais adequado para você neste momento ou se há outros caminhos e profissionais mais indicados para o seu caso.



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