• Flávia Esper

Ninguém está contra si mesmo - uma visão sobre a autossabotagem


Muito se fala em autossabotagem, mas será que é realmente possível alguém estar contra si mesmo ou querer dar errado? Na verdade, ninguém gosta de sofrer. Temos uma busca inata por sobrevivência, felicidade e prazer. Tanto é assim que, desde bebês, evitamos - instintivamente - sabores amargos (que remetem a venenos) e sensações desagradáveis, principalmente a dor física. A auto-proteção e a busca do bem-estar são necessidades básicas e instintivas do homem e dos animais.

Então, por que parece que estamos, freqüentemente, nos autossabotando? Como é possível que uma pessoa que sempre torce o pé ao marcar uma viagem ou que sempre perde o endereço das entrevistas de emprego não esteja sabotando a si mesma, “puxando o próprio tapete”? Na verdade, os padrões que parecem estar nos impedindo de nos realizarmos surgiram em outro contexto. Entendendo como e quando eles foram criados, podemos perceber que eram, originalmente, mecanismos de proteção.

Por exemplo, alguém que teve experiências traumáticas com viagens ou que perdeu alguém que estava em um avião pode desenvolver uma estratégia de proteção contra viajar: perder o voo, torcer o pé, e assim por diante. Originalmente, torcer o pé estaria a serviço da pessoa, protegendo-a de novos traumas ou da morte que ela acreditou estarem relacionados a viagens. Claro que nem sempre é tão fácil identificar a origem de nossos mecanismos, daí a importância de todos os métodos de auto-conhecimento, sejam eles terapia, astrologia, tarô, psicanálise ou qualquer outro meio. Entretanto, quando o fazemos, percebemos que estamos sempre ao nosso lado, o que faz muito mais sentido do que a ideia de estarmos contra nós mesmos.

O que acontece é que os mecanismos de defesa que criamos em um momento podem nos ajudar por um tempo e, depois, passarem a ser desnecessários e assíncronos. Em outras palavras, o que antes nos protegia passa a nos tolher, como agasalhos de crianças que, após crescermos, não nos cabem mais. Continuar a vesti-los seria tolher nossos movimentos e ficar desconfortáveis. Nem mesmo nos protegeriam mais do frio. Assim ocorre com nossas estratégias de proteção. Fora do contexto original, podem se tornar inadequadas e sufocantes. Alguém que teve um trauma com viagens e que passou a torcer o pé para evitá-las pode, atualmente, desejar muito viajar, mas continuar repetindo o padrão de torcer o pé.

Não adianta forçar o pé torcido e viajar. Nossa mente e nosso corpo farão tudo para nos protegerem. É instinto sobreviver e, se cremos que algo é perigoso, eles farão tudo para evitar o perigo. Para sairmos de um padrão de proteção que já não nos serve mais, é necessário não ir contra ele, mas escutá-lo, entender a serviço de que ele está, de quê quer nos proteger. Ao entendermos a crença que gerou o padrão (viagens são perigosas, no exemplo), podemos ressignificar os conteúdos envolvidos e liberá-los. Isto é, estaremos prontos para desconstruir as crenças “equivocadas” e substituí-las por outras mais adequadas ao nosso momento. No exemplo em questão, a pessoa poderia substituir a crença “viagens são perigosas” pela crença “viagens são prazerosas e seguras”.

Enxergar nossas estratégias assíncronas de auto-proteção como autossabotagem gera raiva de nós mesmos, incompreensão, frustração e culpa. Se lutamos contra nós, não podemos ser plenos e seremos sempre perdedores. Em contrapartida, ao olharmos com carinho para nossos próprios mecanismos e ao percebermos o quanto eles nos foram importantes, podemos honrá-los, ressignificá-los e liberá-los. Ao percebermos que nossa força, ainda que de forma desconcertada, está sempre a nosso favor, tornamo-nos mais integrados e podemos usar melhor nosso próprio poder.

A medida de nossa realização pessoal está no quanto conhecemos nossos próprios processos e reações e no quanto somos capazes de escutar o que eles têm a nos dizer e de usar a força empregada neles de uma forma mais adequada à nossa realidade presente. Ao acolhermos nossos mecanismos de defesa, integrando-os a nós mesmos, em vez de renegá-los, tomamos as rédeas de nossa própria força, aptos a direcioná-la da melhor forma possível.

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