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 Portugal

 

              Hoje faz cinco anos que cheguei a Portugal. Como disse uma amiga, “bem-vinda ao clube de quem não sabe o que está fazendo aqui ainda.” Não criei raízes e me sentia perdida por isso. Não sei onde é a minha casa, onde me sinto em casa. Não me sentia em casa no Rio, não me sinto em casa aqui, não sei se um dia me sentirei em casa em algum lugar. Ou se essa sensação de se sentir em casa é mesmo como eu penso que deveria ser. Não me sentia em casa da mesma forma como não me sentia bem-vinda em minha família ou como me sentia estranha no  meu próprio corpo.

                Mas hoje, sentada aqui, quando comecei a escrever, o que me veio foi que estes últimos cinco anos cumpriram brilhantemente o seu papel: libertar-me das raízes que me aprisionavam. Isso me lembra, aliás, do início do meu livro favorito, A Paixão segundo G.H.. Não estar tão enraizada me assusta porque não é conhecido, é uma liberdade que só havia sentido durante minhas viagens de mochila. Desenraizar-me tem sido um processo por vezes pleno de amor, mas por outras - muitas outras - extremamente difícil e doloroso. E necessário.

                Depois da cirurgia que fiz há 15 dias, ganhei de volta minhas pernas, meu corpo, minha vontade de viver. Deixei para trás um peso que não era apenas físico. Reconectei-me com minha coragem, recebi tanto amor e suporte e acolhimento. Lembrei-me de que a minha casa é mesmo meu corpo nesta vida e que jamais me sentiria em casa enquanto não estivesse em paz com ele e realmente presente nele. Esta sensação de ter tido o umbigo refeito sabe quase a um novo nascimento e a um corte dos restos de um cordão que já era passado e apodrecido.

                Não sei ainda para onde vou, se fico, se parto. Desta casa sei que preciso sair, mas não tira mais o meu sono. Porque, neste momento, estou cuidando e me enamorando é da minha casa-corpo, tão minha, que ninguém ma tira. Esta é a minha casa garantida.

              Uma coisa que já sei é que minhas raízes nutridoras estão uma geração abaixo do que é esperado. E nas gerações ainda mais abaixo. Como se houvesse uma constrição nos ramos de raiz que me chegaram e fosse preciso abrir caminhos para buscar alimento nas partes mais profundas.

              Por muitos anos, senti que não fazia parte, por toda a rejeição e abandono que tive das raízes mais recentes. Mas a verdade é que honro meus ancestrais e sempre me nutri deles, das minhas origens, das suas comidas e histórias, das suas melodias e línguas e memórias.

                A primeira vez que viajei, eu tinha 27 anos. Tinha vivido entocada como um bicho aprisionado a maior parte da vida, primeiro pela criação, pela religião, depois pelo trabalho excessivo e pela falta de saber como viver diferente. Quando decidi largar o magistério e pôr uma mochila às costas rumo a uma viagem internacional, estava em busca de quem eu era para além da professora, da filha de pastor, da melhor aluna. Estava em busca de mais vida.

                Houve gente que disse que eu não conseguiria. Eu, a pessoa que não consegue ler mapas, que não tem senso de direção, que se perdia no bairro onde foi criada, que nunca tinha saído do país, vagar de trem por meses pela Europa, numa época em que mal havia celular e nem tinha google maps disponível?

                Mas eu tinha uma certeza interna que tive poucas vezes na vida. A mesma que tive na cirurgia de 15 dias atrás. E eu fui. E foi a melhor experiência da minha vida até então. Descobri uma versão bem disposta, com uma saúde física que eu desconhecia, alegre, comunicativa, desenrolada. Se não sabia ler mapas, conseguia me comunicar e aprender fácil o básico em outros idiomas. E estava protegida por uma sorte incrível, que colocava em meu caminho pessoas muito especiais.

                Fiz questão de ir às terras dos meus ancestrais, ao menos o mais próximo possível. Fui à Itália, a Portugal, à Espanha, ao País Basco. Ainda não consegui ir à Síria nem ao Líbano. O mais perto que cheguei dali foi na Turquia. Naquele tempo, percebi pouco o que agora percebo muito mais: o quanto cada lugar onde tenho raízes me conecta a uma parte diferente de mim. Muito mais que outros lugares por onde passei, os lugares das minhas origens me despertam uma força e uma personalidade diversas. Talvez o único lugar fora das origens conhecidas que tenha me despertado assim tenha sido a Namíbia, mas a África também é origem, origem de todos nós.

                Nem tudo é claro para mim ainda, mas Portugal me traz um lado muito ligado ao sentir, às dores profundas da alma, ao sofrimento, aos amores rasgados, platônicos, literários. Minha saúde física se ressentiu muito aqui, entrei profundamente em contato com as sensações de dor, desamparo, desespero, melancolia, uma tristeza profunda, saudade do que nunca tive. E com o trabalho mais pesado, com as limitações do concreto. Foram tempos bem saturninos aqui. Também entrei mais com contato com o tempo, com um ritmo mais lento e introspectivo, do qual eu necessitava tanto.

                 Essa ligação com as emoções eu já sentia desde a adolescência, quando, ainda na Faculdade de Letras, mergulhava em Florbela Espanca, Pessoa, Camões, Albano Martins, Eduarda Dionísio, Mariana Alcoforado. Ou nos textos sobre cultura portuguesa, ou sobre história e Sebastianismo. Portugal, em mim, acessa lugares profundos de saudade, lirismo, abandono, tempo, espera e dureza. E sei que esses lugares estiveram bem presentes nas minhas origens portuguesas, na história do meu avô e dos meus bisavós.

               Entretanto, Portugal, se me traz o contato com a dor, também foi o lugar onde encontrei o espaço seguro e o acolhimento necessário, entre portugueses, para, finalmente, fazer esse contato de forma amorosa e amparada. Foi aqui que pude, finalmente, curar certas dores fundamentais que me acompanhavam desde bem pequena.

                Foi entre portugueses que recebi o colo, a força, o afeto precisos para ressignificar essas dores, para me sentir amada, segura, bem-vinda e necessária. E pude fazer as pazes com o tempo, aconchegar as faltas com novos afetos, mudar o rumo do olhar antes vidrado quase como à espera de um Dom Sebastião. Pude fazer o luto de forma segura e passar a olhar para o momento, para minhas necessidades e assumir-me inteira. Pude, finalmente, atravessar o sofrimento que me acompanhava uma vida, para sair do outro lado e descobrir a beleza de tanto amor.

 

                Aqui também pude fazer as pazes como tempo e com meu ritmo lento de ser. E pude, ainda, recuperar e reconhecer minha coragem e vontade de redescobrir o mundo. Afinal, além do saudosismo, foi daqui que partiram as caravelas aventureiras e convictas rumo ao desconhecido. E foi daqui que partiram também meus bisavós, rumo à aventura nada fácil de imigrar para um continente novo, para uma vida nova. Como eu, tantos anos depois, fazendo a rota contrária.

Flávia Esper de Andrade

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